Evasão em cursos a distância – a “oxidação” do crescimento no sistema educacional

Por que mais da metade dos matriculados nos cursos em EaD não concluem os seus estudos?

Recentemente tivemos acesso a duas publicações importantes para o ensino superior no Brasil, o Censo da Educação Superior, conduzido pelo INEP, e o Censo da ABED.  Os dados levantados nestes dois documentos submetidos às análises competentes das consultorias especialistas no segmento, bem como das próprias IES, apontam para as mesmas virtudes e os mesmos problemas: somos bons em captação de alunos e falhamos na retenção.  Esse quadro assemelha-se à imagem de um compartimento que se enche de líquido, mas que possui tantos vazamentos que impedem que o compartimento se encha.

Adicionalmente aos documentos citados, nós, da EaDucativa, promovemos um levantamento amplo junto às IES, para saber quais os três principais problemas enfrentados por elas em relação à EaD. Os resultados apontaram:

  1. Produção de conteúdos – mais de 50% dos respondentes disseram que esse é o seu maior problema;
  2. Evasão – mais de 45% dos respondentes afirmam que esse é o maior problema;
  3. Capacitação de pessoal docente e de apoio – mais de 40% dos respondentes reportam que esse é o maior problema.

Estes resultados, combinados, nos trazem várias reflexões sobre a pergunta que fiz no início do texto. A que gostaria de destacar aqui é sobre o quanto a elaboração e produção de conteúdos próprios para os ambientes virtuais de aprendizagem e a capacitação de pessoas (docentes, tutores, equipe multidisciplinar, pessoal de apoio) para utilizá-los, numa sociedade cada vez mais digital, influencia no movimento de evasão de alunos.

A primeira dimensão sob o foco dessa reflexão é o modelo de negócios que predomina hoje na EaD e o seu impacto no segmento. O fato de o aluno não concluir os seus estudos alegando falta de tempo e de recursos financeiros, problemas esses que são os que a EaD efetivamente resolve, me parece que tem mais a ver com a proposta de valor dos cursos oferecidos pelas instituições para a vida profissional e pessoal do mesmo. O aluno vê valor no que está recebendo? Ele consegue fazer uma ligação clara entre o que está aprendendo e o quanto esses conhecimentos podem levá-lo a um outro nível ou ao status profissional desejado por ele? As instituições estão sabendo comunicar essa proposta por meio do dimensionamento de seus conteúdos, estratégias didáticas e dos agentes educacionais que atuam nesse processo? O fato de as IES manifestarem uma preocupação maior com a produção de conteúdos, já nos dá uma ideia de que essa relação merece ser melhor investigada.

Por outro lado, vemos as instituições privadas, mesmo as de menor porte, investindo prioritariamente nas atividades-chave do modelo que visam tão somente os ganhos de escala. O reflexo disso está no enfoque na gestão de captação, de marketing e de vendas, tratando com menor ênfase a gestão da evasão e da produção de conteúdos como atividades-chave. Adicionalmente, e por via de consequência, não há uma estratégia clara de relacionamento com o aluno, apenas com o futuro aluno, ou o prospecto.

A verdade é que não existe EaD de qualidade sem investimentos equilibrados em todas as atividades-chave da cadeia de valor, mas sobretudo e principalmente, na atividade final, que é entregar conhecimento atualizado e aplicável às necessidades de desenvolvimento dos cidadãos e do país.

A ideia que subjaz nas “mentes” de algumas instituições de que basta apenas estar credenciada e autorizada a oferecer cursos em EaD, investir em marketing e vendas, adquirir disciplinas para dar conta da oferta inicial, matricular alunos e achar que vai ganhar muito dinheiro com o potencial de crescimento do mercado, vem demonstrando, na prática, a força de sua ingenuidade. O aluno que não consegue ver propósito nos conteúdos oferecidos e, ainda, tem em sua mente um modelo presencial de aprendizagem, não engaja e evade logo nos primeiros períodos.

Uma segunda dimensão, mais estratégica, nos dá conta de que o retorno dos investimentos em um mercado quase “comoditizado”, definido por preços, exige uma operação enxuta, sustentável e com uma boa reserva de giro para se manter no longo prazo. Essa é uma enorme barreira de entrada para as novas instituições e, por outro lado, com a redução de 50%, em média, do valor das mensalidades em EaD em relação ao ensino presencial, o custo de desistência para o aluno fica menor. Se não vê valor, é mais fácil evadir, esperar novo momento ou tentar fazer o curso presencial.

Diante deste cenário, pode-se inferir que os investimentos em elaboração e produção de conteúdo acadêmico e em capacitação docente e de pessoal de apoio sofrem reduções importantes, principalmente porque podem ser “aproveitados” dos cursos presenciais. Não entender a diferença de abordagem entre as modalidades vai impactar na expectativa de qualidade percebida pelo aluno.

O lado humano da equação também é outra dimensão relevante. O conhecimento do perfil dos alunos da EaD e a utilização dessa informação na estratégia de produção de conteúdos são decisivos na hora de definir as estratégias didáticas no ambiente virtual. A média de idade é maior do que a do ensino presencial, no geral, estão no mercado de trabalho, não têm muito tempo para os estudos e não se conectam com modelos em que não vêem aplicação prática e sentido para a vida deles, ainda mais quando submetidos à cargas de trabalho desbalanceadas, ora excessivas, ora muito leves, a ponto de não trazer a tão necessária “masterização” de conteúdos importantes para a sua formação.

Será que o foco adequado na atividade final do negócio educação – a elaboração, produção e entrega de um conteúdo atualizado, contextualizado, aplicável, não seria uma forma mais viável de transmitir a proposta de valor das IES? Desta forma, o estudante em contato com o conhecimento estrategicamente construído, possa ver sentido prático para os seus objetivos profissionais, sentindo-se incentivado a fazer um esforço de conclusão de seu curso, atraído pela possibilidade de uma sensível mudança de status social e de qualidade de vida?

Há ainda a questão da capacitação dos docentes e da equipe que trabalha no processo. A ação desses profissionais requer o desenvolvimento de habilidades essenciais para um trabalho onde o estímulo principal não está no contato presencial. Trabalhar em equipe através de ferramentas de tecnologia remota e sensibilidade para conduzir os docentes para o seu objetivo final utilizando técnicas de coaching e mentoring, além de outras habilidades sociais mediadas pela tecnologia, são indispensáveis para manter a motivação, o foco e o propósito dos alunos em seus estudos. O aluno que se sente “abandonado” tem forte tendência a evadir.

Carecemos de mais estudos sobre as relações entre conteúdos, capacitação de agentes educacionais e evasão na EaD em ambientes tecnológicos. As reflexões apresentadas aqui têm o condão apenas de compartilhar pensamentos, muito distante de serem a expressão da verdade.

Finalizando, entendemos o porquê da inquietude das IES em relação à produção de conteúdos e a relação estabelecida com a evasão. O que nós vimos propondo como elementos indispensáveis à formulação de estratégias de conteúdo que engajem, retenham e dirijam o aluno para o seu objetivo final é:

  • Conhecer o perfil comportamental dos estudantes e entender que essa é uma tarefa que requer revisão constante, pois, as gerações mudam muito rapidamente – a linguagem do conteúdo, não a sua essência, tem que estar contextualizada com o momento histórico-cultural vivido, para que a sua relevância seja bem comunicada;
  • Entender, de fato, o que é valor para o aluno e elaborar os conteúdos para entregar esse valor;
  • Investir em mediação inteligente, capacitando os tutores para apoio dos alunos dentro do AVA e os professores para utilizarem estratégias didáticas que conduzam o aluno para o seu objetivo final, utilizando técnicas de coaching e mentoring. O professor é um desenvolvedor de pessoas e tem que ser treinado a agir como tal;
  • Gerenciar as principais métricas dos alunos no AVA, como por exemplo o progresso no curso e a exposição aos objetos de aprendizagem.  A análise desses e de outros indicadores, associadas às outras variáveis externas, trarão conhecimento imprescindível para melhorias no processo, aumentando a percepção de valor dos alunos;
  • Investir em relacionamento com os alunos, sobretudo nos ambientes onde eles mais tempo ficam – as redes sociais e os seus grupos de pertencimento. Estudar a distância não tem nada a ver com o afastamento entre a instituição e o aluno, pelo contrário, é promover aproximação mediada pela tecnologia;
  • Dar e buscar por feedback imediato e constante. Isso dá a sensação de progresso e gera estímulo para ambas as partes, aluno e instituição, entenderem as oportunidades de melhorias e promoverem mudanças importantes de ações para completarem o objetivo de concluírem o curso com sucesso;
  • Preparar a equipe multidisciplinar para atuar rapidamente sobre o conteúdo quando alguma necessidade for identificada;
  • Estruturar bem o ambiente de aprendizagem para que vá além de um mero repositório de conteúdos e seja estimulante para os alunos;
  • Fazer tudo isso de forma muito simples e viável.

A evasão em EaD impede o crescimento líquido do sistema educacional. As matrículas são extremamente importantes, mas apenas o início de um processo em que se objetiva a formação de novas inteligências capazes de trazer maior competitividade e desenvolvimento para o país.

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